Brasil Diarréia
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CHEGA DE LUTO, NO BRASIL!
O Brasil e a "cultura brasileira" parecem aspirar a uma forma imperialista "paterno-cultural".
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[...] a falta total de caráter floresce hoje no Brasil - não me refiro somente à "cultura" e "contexto cultural"; o conceito limita e amesquinha tudo; quero me referir a uma coisa global, que envolve um contexto maior de ação (incluindo os lados ético-político-social), de onde nascem as necessidades criativas: mais particularmente aos "hábitos" inerentes à sociedade brasileira: cinismo, hipocrisia, ignorância, concentram-se nisso a que chamo de convi-conivência: todos "se punem", aspiram a uma "pureza abstrata" - estão culpados e esperam o castigo - desejam-no. Que se danem.
É preciso entender que uma posição crítica implica em inevitáveis ambivalências; estar apto a julgar, julgar-se, optar, criar, é estar aberto às ambivalências, já que valores absolutos tendem a castrar quaisquer dessas liberdades; direi mesmo: pensar em termos absolutos, é cair em erro constantemente; - envelhecer fatalmente; conduzir-se a uma posição conservadora (conformismos; paternalismos; etc.); o que não significa que não se deva optar com firmeza: a dificuldade de uma opção forte é sempre a de assumir as ambivalências e destrinchar pedaço por pedaço cada problema. Assumir ambivalências não significa aceitar conformisticamente todo estado de coisas; ao contrário, aspira-se então a colocá-lo em questão. Eis a questão.
E a questão brasileira é ter caráter, isto é, entender e assumir todo esse fenômeno, que nada deva excluir dessa "posta em questão": [...] reconhecer que para se superar uma condição provinciana estagnatória, esses termos devem ser colocados universalmente, isto é, devem propor questões essenciais ao fenômeno construtivo do Brasil como um todo, no mundo, em tudo o que isso possa significar e envolver. [...] anular a condição colonialista é assumir e deglutir os valores positivos dados por essa condição, e não evitá-los como se fossem uma miragem [...].
Maior inimigo: o moralismo quatrocentão (de origem branca, cristã-portuguesa) - brasil paternal - o cultivo dos "bons hábitos" - a super autoconsciência - a prisão de ventre "nacional".
A formação brasileira, reconheça-se, é de uma falta de caráter incrível: diarréica; quem quiser construir (ninguém mais do que eu, "ama o Brasil"!) tem que ver isso e dissecar as tripas dessa diarréia - mergulhar na merda.
[...] o que mais dilui hoje no contexto brasileiro é justamente essa falta de coerência crítica que gera a tal convi-conivência; a reação cultural, que tende a estagnar e se tornar "oficial" [...]. Por isso digo: a omissão consciente, ou melhor, pular fora, pode ser mais importante para a "cultura brasileira" revolucionária, do que participar no contexto imediato "policiado" [...] desse policiamento moralista-paternal-reacionário vigente hoje no Brasil [...] é um estado geral de coisas e vem ao encontro da mentalidade diarréica do país. [...].
No Brasil, portanto, uma posição crítica universal permanente e o experimental são elementos construtivos.
Tudo o mais é diluição na diarréia.
HÉLIO OITICICA.