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| tt. digital drawing |
A sala estava envolta no lusco-fusco do fim da tarde. Sentado, mal podia distinguir o que ficava no trajeto entre a mesa e a porta: da janela vinha só um fiapo de luz, restos de claridade dissolvidas contra as primeiras tentativas da noite. Atrás das pastas de documentos, sem conseguir se concentrar em nenhuma, foi sendo tomado pela impressão de que estivera absolutamente só nos últimos trinta minutos. Ninguém tinha vindo com opiniões sobre a empresa nem sobre outro assunto qualquer, teria reagido apenas aos ecos de si mesmo, empilhados meses a fio dentro do peito. Então uma torrente de sensações desabou em cima dele, enquanto o crepúsculo imprimia nas paredes da sala, quase às escuras, sombras perturbadoras de seres mal conformados, ondulações hipnóticas forçando-o para dentro de um poço sem fim. Foi cercado por borras pretas, manchas imprecisas, abantesmas movendo-se deslizantes no moto-contínuo da brisa entrando e saindo pela janela quando, em dado momento, expressão moldada pelo rictus do espanto, todas descolaram das paredes a um só tempo para girar aos guinchos em torno dele, horrendas, movimento cada vez mais acelerado, uivando velocíssimas uma cantilena monocórdica, sem nexo, que lhe varava a cabeça ocupando-a toda com a alucinação galopante daquela ciranda agressiva. Reduzindo a mero contorno cor de chumbo não se distinguia dos poucos móveis, porta, vidraças, dos objetos em cima da mesa e nem parecia menos inanimado que nenhum. Quanto tempo teria ficado assim, à mercê daqueles seres minúsculos, ruidosos, paralisado entre duas frequências até conseguir se livrar da vertigem alcançando o botão da luz elétrica? Cinco? Dez? Quinze minutos? Cerca de meia hora?
Ana Luisa Escorel
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