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DRUMMOND JOVEM

OS 25 POEMAS DA TRISTE ALEGRIA

CARLOS DRUMMOND

Belo Horizonte, 1924




Publicado postumamente em formato fac-símile, pela editora paulistana Cosac Naify, em 2012, Os 25 Poemas da Triste Alegria, do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, mostra essa curiosa folha de rosto ilustrada com o seu perfil, que antecede a entrada dos poemas no livro. Já se percebe, nessa breve descrição, a futura personalidade literária do autor, então ainda um rapaz de 22 anos. 


Introduzindo o livro, o poeta e crítico literário carioca Antonio Carlos Secchin comenta a origem e as estórias por trás desse primeiro livro de poemas drummondiano, especialmente a partir da voz de Mário de Andrade, interlocutor e mentor do jovem escritor de Itabira.
Entre as tantas inseguranças de Drummond, uma nos chama particularmente a atenção, que seria a sua indecisão em relação à assinatura do próprio nome. Observe-se que,  na legenda da ilustração, ele é identificado apenas por "Carlos Drummond". Assim relata Secchin:

As incertezas drummondianas, no alvorecer do segundo decênio do século passado, começavam por seu próprio nome. Como assinar-se, literariamente falando? Se descartarmos seus mais de 50 pseudônimos (onde pontifica um certo Antônio Crispim), deparamo-nos, na colaboração para os jornais, com "C. Drummond Andrade", "CEDEA", "Cê Dêá", "C. Drummond d'Andrade", "C.D.A.", "C. Drummond", até chegarmos a "Carlos Drummond", que prevalecerá até 1925. "Carlos Drummond de Andrade" só nascerá em setembro de 1927, com a publicação de "Sinal de apito" no número 1 da revista Verde. É, pois, como "Carlos Drummond" que se identifica o autor de Os 25 Poemas da Triste Alegria. Mesmo em 1937, nas intervenções manuscritas, o sobrenome "Andrade" não comparece uma vez sequer. Na verdade, o poeta opta por chancelar seus comentários por meio de abreviaturas: uma vez "CDA", outra, singelamente, "C"; em 13 ocasiões, "CD". (ANDRADE, 2012, p. 13-14).

Na análise de Secchin, em 1924, Drummond ainda era o "hesitante poeta penumbrista Carlos Drummond", e este, depois, irá se contrastar com o "atilado e irônico crítico Carlos Drummond de Andrade", de 1937, quando ele assume o seu nome integralmente. (ANDRADE, 2012, p. 14).

O poema que abre o livro - "A sombra do homem que sorriu", é formado de uma única estrofe de cinco versos. Trata-se de um poema curto, um tipo de texto que Drummond desenvolveria com maestria ao longo do tempo. O tom patético e melancólico do poema imprime um ritmo pausado de leitura, não obstante a forma breve do texto. O "poeta penumbrista" está representado pelo eu lírico, cuja "sombra inutil" é dele o que restou. De alguma forma, este pequeno fragmento poético da juventude revela a marca da poesia reflexiva drummondiana que surgirá anos depois, pelo seu tom levemente blasé, aproximando-se da ironia, sua marca registrada:


A SOMBRA DO HOMEM QUE SORRIU*

Ah! que os tapetes não guardem
a sombra inutil dos meus passos...
Eu quero ser, apenas,
um homem que sorriu e que passou,
erguendo a sua taça, com desdém.
                                                                                                                         (ANDRADE, 2012, p. 22)

Passados treze anos, assim o "crítico Carlos Drummond de Andrade" analisaria os poemas do jovem "poeta penumbrista Carlos Drummond" que fora em 1924. De modo categórico, como se estivesse falando de um poeta qualquer:

O que há de deplorável nestes versos é que elles são authenticos
Salvo um poema, que resultou de um movimento da sensibilidade [...] os demais podiam deixar de ser escriptos. São exercícios à moda do tempo, tímidos e mecanicos. Não deram evasão a nenhuma necessidade íntima, não transpuzeram nenhuma aventura ou experiencia intellectual ou physica.
*É impossível não ter pena do pobre poeta que os escreveu.
São puramente literarios (no mau sentido) [...].
                                                                                                                                                     26.3.937
(ANDRADE, 2012, p. 23).


ANDRADE, Carlos Drummond de. Os 25 Poemas da Triste Alegria. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
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* O poema e a citação da nota crítica do poeta seguem a grafia da época, conforme a publicação original fac-símile preservada pela editora Cosac Naify.