Por que devemos sempre ler Nietzsche e cada vez mais intensa e profundamente?
ECCE HOMO
COMO TORNAR-SE O QUE SE É
(1888)
§ 2
[...] Pois prestem atenção a isto: os anos de minha mais baixa vitalidade foram aqueles em que eu deixei de ser pessimista: o instinto do auto-restabelecimento proibiu-me uma filosofia da pobreza e do desânimo... E como se reconhece, no fundo, uma índole bem lograda? Um homem bem logrado faz bem a nossos sentidos: é talhado em uma madeira que é dura, delicada e bem cheirosa ao mesmo tempo. Só encontra sabor naquilo que é compatível; seu agrado, seu prazer cessa, onde a medida do compatível é ultrapassada. Adivinha meios de cura contra danos, utiliza acasos ruins em sua vantagem; o que não o derruba, torna-o mais forte. Ele faz instintivamente, de tudo aquilo que vê, ouve, vive, uma soma: ele é um princípio seletivo, muito ele deixa de lado. Está sempre em sua companhia, quer esteja com livros, homens ou paisagens: honra ao escolher, ao abandonar, ao confiar. Reage a todos os estímulos lentamente, com aquela lentidão que uma longa cautela e um orgulho proposital aprimoraram nele - examina o estímulo que se aproxima dele, está longe de ir ao seu encontro. Não acredita nem em "infelicidade" nem em "culpa": fica quite consigo, com os outros, sabe esquecer - é forte o bastante para que tudo tenha de lhe sair da melhor maneira. - Pois bem, eu sou o reverso de um décadent: pois acabo de me descrever.