Devido, infelizmente, à perda do grande pensador brasileiro Antonio Candido de Mello e Souza, mais conhecido apenas por Antonio Candido (sim, sem acentos circunflexos), resta-nos como consolo render-lhe as mais do que justas homenagens. Seria redundante falar o que todos já sabem sobre este intelectual e professor (USP), então, posto aqui uma crônica escrita por sua filha, a também escritora Ana Luisa Escorel. Ela foi originalmente publicada no blog da Ouro sobre Azul, editora carioca criada pela autora, que tem formação em Design Gráfico. Posteriormente, essa crônica e as demais já publicadas nesse blog, foram compiladas em um livro editado pela Ouro sobre Azul, no ano passado. Nela, sentimos profundamente a ligação entre pai e filha, mas também a percepção literária impregnada em sua escrita através da influência paterna. Uma belíssima declaração de amor a este que foi, antes de mais nada, um homem fiel aos seus ideais, que respeitava a Literatura e a pensava de uma forma realmente séria e original, como pouco se viu no país até hoje, criando uma nova maneira de fazer crítica literária, valorizando a linguagem e o objeto literário dentro de um contexto histórico e social.
O RETRATO
25 de janeiro de 2016, por Ana Luisa Escorel.
Ela tem em casa
um retrato do pai feito entre 1950 e 1951 por Arnaldo Pedroso D’Horta. Uma tela
a óleo em que a pincelada não aparece e os campos de cor são formados por áreas
uniformes, camadas muito finas, como se tivessem sido impressos em off-set – a
traço – livres dos pontos da retícula tipográfica.
O pai está com um
pulôver sem mangas verde quase esmeralda que jamais teve e, se tivesse tido,
certamente não usaria. Gravata vermelho vivo saltando contra o azul claro
espalhado no fundo, no pescoço e no colarinho, monocromia inventada para
destacá-la junto com o pulôver e com o rosto de expressão melancólica inclinado
para a esquerda. Por isso a avó implicava com o quadro que, durante bom tempo,
esteve num canto, voltado contra a parede para não haver risco dela cruzar com
a tristeza do filho.
A neta, ao
contrário, sempre gostou do retrato e quando pode deu um jeito de ficar com
ele. Desde menina se interessava precisamente por esse desalento, nada ajustado
à personalidade alegre com a qual todos convivíam dentro da casa. Intuia de
forma difusa que Arnaldo, com o olhar do artista – familiar a todos os avêssos
– havia representado, na figura do amigo, o compromisso com o inalcançável.
Com o passar do tempo essa
interpretação foi ganhando corpo. De tal forma que todos os dias no café da
manhã, frente ao retrato, ela vê renascer o prisma agudo de Arnaldo, socialista
como o pai, companheiro de luta e de ideais. Vê reafirmada a sensibilidade
que, na melancolia do jovem intelectual, prefigurou a vitória de uma ordem
política e social iníqua, muito distante das expectativas de mocidade tanto do
modelo quanto de seu pintor.
In: ESCOREL, Ana Luisa. De Tudo Um Pouco. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2016.