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Orides Fontela (1940-1998)


Hoje, pelo que consta, faz dezenove anos que a poeta Orides Fontela desmaterializou-se. Em sua homenagem, nada mais apropriado do que postar um poema que seja uma síntese da sua personalidade enigmática e polêmica, e que, ainda, revele a qualidade estética de sua escrita sinteticamente densa, dramaticamente árida:



FALA

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)

Orides Fontela (Transposição, 1969).