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Embora com atraso...


Comemoramos, esta semana, o aniversário de nascimento do escritor Carlos Drummond de Andrade (Itabira-MG, 31/10/1902). O Autor faria 117 anos. E seu trabalho, porque a arte demanda muito trabalho, ainda durará outros tantos e tantos 117 anos, e além.

Sua obra, constituída de textos em gêneros variados como contos, crônicas, ensaios, resenhas críticas, destaca-se, principalmente, pela poesia. Gênero maior a partir do qual Drummond indubitavelmente obteve os melhores resultados estéticos, poéticos e linguísticos.

Foi, inclusive, através da poesia que o Poeta expôs suas maiores dificuldades em relação ao trabalho da escrita, dada as especificidades dessa linguagem e seus enigmas. Nesse sentido, sua escritura torna-se pura poética sobre o fazer poético, como constatamos em um poema pouco ou, talvez, nada lembrado, presente em seu livro de estreia, Alguma Poesia, de 1930. Vemos, sem qualquer espanto, o quanto ele está atual:



TAMBÉM JÁ FUI BRASILEIRO

Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrela
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isto, dizia aquilo,
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.

Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.

Carlos Drummond de Andrade


(In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia 1930-62: de Alguma Poesia a Lição de Coisas. Edição crítica preparada por Júlio Castagñon Guimarães. SP: Cosac Naify, 2012).