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Segunda para Iberê


Iberê Camargo (18/11/1914) faria, este ano, 105 anos. Reconhecido internacionalmente como um dos poucos representantes verdadeiramente expressionistas dentro das artes plásticas no Brasil, Iberê sempre correu contra o tempo. Até seus últimos dias de vida, na iminência da morte, continuou pintando intensamente, como se não houvesse amanhã, como se fosse a coisa mais importante a ser feita. Era urgente deixar a sua marca, o seu legado artístico e intelectual, muito mais do que a sua história pessoal. Iberê travou uma verdadeira guerra contra o tempo, a fim de deixar para as gerações futuras o que de melhor poderia realizar: sua arte, seus escritos. Seus 80 anos incompletos foram insuficientes para sua força criativa. Seus textos memorialísticos, publicados quatro anos após a sua morte, são um bom exemplo dessa produção literária altamente original, e ainda pouco conhecida e estudada. Pertence a esse livro póstumo, um conto breve que revela a busca pela eternidade através do fazer artístico, a ilusão do artista, a tarefa de Sísifo.



eternidade

Após longa e fatigante caminhada, atravesso o Estige na barca de Caronte, e chego lá onde o caminhante, ao entrar, deve abandonar qualquer esperança.
Esse é o lugar de lágrimas e sofrimento e ranger de dentes de que falava o irmão-prefeito, nas assustadoras aulas de religião, no internato marista de Cacequi. Ele o descrevia minuciosamente e, com voz e gesto de orador sacro, ameaçava-nos com o fogo eterno. Nós os escutávamos, transidos de medo.
Como o viajante recém-chegado à terra estranha, perambulo ao acaso e, assim, sem que a vontade dirija meus passos, encontro-me de imprevisto no meu antigo ateliê, agora inundado de uma luz que me ofusca a visão. Nele, o único móvel que resta é o meu tamborete de pintor, empoeirado pelo tempo. Ele está colocado no centro da peça, à frente de uma parede coberta por uma cortina que flutua como uma nuvem, que ora se encapela como o mar ora arde como chama viva, cor de sangue, que se contorce ao sopro do vento infernal.

Iberê Camargo


(In: CAMARGO, Iberê. Gaveta dos Guardados. Organização e prefácio de Augusto Massi. SP: Edusp, 1998).