A obra do escritor alemão Bertolt Brecht (1898-1956) continua essencial. Suas palavras iluminam poderosamente tempos sombrios e perigosos como os atuais, nos quais as consciências perdidas ou ditas "neutras" (pois não há como ter neutralidade política), são direta ou indiretamente cooptadas e guiadas por ideologias e doutrinas fundamentalistas nazi-fascistas, como as disseminadas pelo desgoverno de extrema-direita miliciano, criminoso, fraudulento, corrupto e elitista do brazil. Diz o pesquisador e tradutor Edmundo Moniz, a respeito da importância da poesia e do teatro brechtiano, levando-nos a refletir sobre o estado de coisas absurdas sob as quais vivemos em pleno século XXI, revelando o retrocesso humano ao qual nos encontramos, semelhante ao que ocorreu no período histórico vivido por Brecht:
A alienação do homem, para Brecht, não se manifesta como produto da intuição artística. Brecht ocupa-se dela de maneira consciente e proposital. Mas não basta compreendê-la e focalizá-la. O essencial não é a alienação em si, mas o esforço histórico para a desalienação do homem. [...]
[...]
A obra poética de Bertolt Brecht, escrita contra Hitler e o nazismo, não é só um protesto contra as injustiças sociais, contra os atentados à liberdade. É também uma corajosa mensagem de confiança histórica na ação transformadora dos homens que lutam por um destino melhor. (MONIZ, 1982, p. 7-12).
NADA É IMPOSSÍVEL DE MUDAR
Desconfiai do mais trivial,
na aparência do singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito
como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.
Bertolt Brecht
(In: BRECHT, Bertolt. Antologia Poética. Seleção e tradução de Edmundo Moniz. 2. ed. Rio de Janeiro: Elo Editora, 1982. p. 45)